quinta-feira, 30 de abril de 2020

Uma releitura de Ana Jansen

Apenas um poste de luz fazia diferença naquela sexta-feira nublada, sem estrelas ou lua. O céu tomava uma coloração avermelhada, com certeza os moradores da ilha receberiam chuva em poucas horas.

Ela reteu-se na entrada da ruela - cuja luz abria caminho - por um segundo. Neste piscar de olhos, tomou sua decisão: caminhar pelos becos no centro histórico, numa sexta feira a noite, não era ideal. Mas o caminho seria mais curto, e os possíveis perigos dos becos não se comparavam aos horrores que um poderia deparar-se nas ruas mais largas.

De dia, tudo estaria ocupado pelo comércio, turistas e moradores locais, mas não era dia.

Ouvia seus próprios passos rápidos, desesperados para chegar logo em casa. Perdera seu ônibus usual, um dos últimos, por isso encontrava-se ali, nesse momento.

Suando muito, seu coração pulou uma batida e ela sentiu seu interior gelar ao escutar as correntes e os gritos abafados se aproximando.  Já era tarde demais e não fazia diferença tentar ocultar sua presenta ali. Correndo, chegou ao fim do beco e virou a direita, a caminho de casa. O ruído da sua própria movimentação doía-lhe internamente, sabendo que atraía aquilo para si.

A segurança de estar em casa já estava próxima, mas precisava apressar-se. À medida em que seus passos volviam-se mais rápidos, mais velozes também se aproximavam as rodas batendo contra o chão de paralelepípedos.

Correu exaustivamente, até que enfim chegou à porta de casa. Com a respiração pesada e dores mordendo seu abdome, ela tateou os bolsos em busca das chaves. Sentindo o sangue nas têmporas e ouvidos, tentava copiosamente encaixar a chave na fechadura, mas era impedida pela tremor em suas mãos. O som chegava mais perto, seu desespero aumentava, em poucos segundos estariam dobrando à esquina.

Respirou fundo e concentrou-se. Colocou a chave corretamente, destrancou a porta. Ao entrar na casa, escorou-se na superfície pesada logo depois de fechá-la. Tinha sua respiração tremula, e não preocupou-se em trancar o caminho, já não era importante, contanto que a porta estivesse cerrada. Deslizou até o chão, e manteve-se apoiada ali. Os gritos, as correntes e o som infernal das rodas estavam passando onde ela estivera um momento antes. A carruagem deteu-se por um instante, e nesse momento que pareceu durar muito mais, seus olhos se arregalaram e seu coração parecia que ia sair pela boca. "Não... Não pode ser", pensara. Mas para seu alívio, após fazer-se um silêncio aterrorizante e inusual, os ruídos voltaram e a carruagem moveu-se, seguindo seu curso.

Suspirando, ela permaneceu ali por um tempo, ouvindo os sons desaparecerem aos poucos pelas ruas da cidade. Em seguida, quando só o que escutava era seu respirar e os tiques do relógio, levantou-se e trancou a porta. Acendeu uma vela e deixou-a na janela. Naquela noite, seu sono foi pesado e sem sonhos. No dia seguinte, no lugar onde deixara a vela, encontrava-se um osso. Havia sido por pouco...









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