quinta-feira, 30 de abril de 2020

Pra dar nojo (eu espero)


Ele voltava para casa extremamente bêbado. Tomou mais do que deveria de uma mesma bebida, e como se não fosse o suficiente, misturou-a com outras.  A algazarra de álcool em seu estômago borbulhava;  sua visão distorcida não o distraía da urgência de urinar. Parecia que quanto mais perto de sua casa ele chegava, maior o aperto na bexiga. Não queria parar no meio da rua movimentada para fazer suas necessidades, precisava chegar logo em casa. 

Ao chegar, não teve que destrancar a porta. Um dos hábitos irritantes de sua família era deixar a porta aberta, mas nessa ocasião, ele agradeceu internamente pelo descuido dos pais. Com um frenesi de quem precisa se aliviar,  tentou tirar os sapatos.  Seu corpo, intoxicado por álcool, não obedeceu os comandos da mente e ele caiu no chão. Instantaneamente aconteceu o que ele queria tanto evitar. Sua calça começou a encharcar-se em uma velocidade rápida, as pernas aquecidas pelo calor da urina. 

Com um gemido, ele se levantou do chão e tentou chegar rapidamente ao banheiro, deixando um rastro molhado pelo caminho. Teve pouco sucesso em fazer isso de maneira discreta. Esbarrou e caiu sobre a pequena mesa de vidro que ficava no corredor, a caminho do banheiro. Levantou-se e continuou o percurso mancando. Atrás dele, ficaram vasos quebrados e uma bíblia caída, aos poucos absorvendo um líquido amarelo e outro vermelho. Sem perceber, ele havia se cortado na perna, e uma grande lasca de vidro alojava-se em sua coxa.

No banheiro, já era tarde. Não podia mais controlar o fluxo. Ao olhar para baixo, percebeu que suas calças estavam não apenas úmidas de urina, mas de sangue espesso. Voltou-se para trás e viu o seu caminho marcado por vermelho. Ele nunca lidava bem com sangue. Sentiu o cheiro ferruginoso com mais intensidade, e isso, misturado à embriaguez, levou-o a curvar-se e vomitar. Despejando os conteúdos meio fora do vaso,  não conseguiu manter-se em pé, caiu para trás, as mãos apoiando sua queda. O vômito não parou, ele continuou expelindo, sem forças para sequer virar a cabeça para o lado. O fluído escorria por seu queixo. A camisa, uma vez limpa, sujou-se. E em sua calça formou-se uma mistura de urina, sangue e vômito, cujo odor só dava-lhe vontade de seguir vomitando.

Estava semiconsciente dos ruídos vindo de cima. Seus pais o haviam escutado e desciam as escadas. Já sem vomitar, ele tentou controlar a tontura, manter-se desperto. Mirando a luz do banheiro, tudo girava. Ele sentia a consciência esvaindo-se. E antes que seus pais chegassem, desmaiou.

Uma releitura de Ana Jansen

Apenas um poste de luz fazia diferença naquela sexta-feira nublada, sem estrelas ou lua. O céu tomava uma coloração avermelhada, com certeza os moradores da ilha receberiam chuva em poucas horas.

Ela reteu-se na entrada da ruela - cuja luz abria caminho - por um segundo. Neste piscar de olhos, tomou sua decisão: caminhar pelos becos no centro histórico, numa sexta feira a noite, não era ideal. Mas o caminho seria mais curto, e os possíveis perigos dos becos não se comparavam aos horrores que um poderia deparar-se nas ruas mais largas.

De dia, tudo estaria ocupado pelo comércio, turistas e moradores locais, mas não era dia.

Ouvia seus próprios passos rápidos, desesperados para chegar logo em casa. Perdera seu ônibus usual, um dos últimos, por isso encontrava-se ali, nesse momento.

Suando muito, seu coração pulou uma batida e ela sentiu seu interior gelar ao escutar as correntes e os gritos abafados se aproximando.  Já era tarde demais e não fazia diferença tentar ocultar sua presenta ali. Correndo, chegou ao fim do beco e virou a direita, a caminho de casa. O ruído da sua própria movimentação doía-lhe internamente, sabendo que atraía aquilo para si.

A segurança de estar em casa já estava próxima, mas precisava apressar-se. À medida em que seus passos volviam-se mais rápidos, mais velozes também se aproximavam as rodas batendo contra o chão de paralelepípedos.

Correu exaustivamente, até que enfim chegou à porta de casa. Com a respiração pesada e dores mordendo seu abdome, ela tateou os bolsos em busca das chaves. Sentindo o sangue nas têmporas e ouvidos, tentava copiosamente encaixar a chave na fechadura, mas era impedida pela tremor em suas mãos. O som chegava mais perto, seu desespero aumentava, em poucos segundos estariam dobrando à esquina.

Respirou fundo e concentrou-se. Colocou a chave corretamente, destrancou a porta. Ao entrar na casa, escorou-se na superfície pesada logo depois de fechá-la. Tinha sua respiração tremula, e não preocupou-se em trancar o caminho, já não era importante, contanto que a porta estivesse cerrada. Deslizou até o chão, e manteve-se apoiada ali. Os gritos, as correntes e o som infernal das rodas estavam passando onde ela estivera um momento antes. A carruagem deteu-se por um instante, e nesse momento que pareceu durar muito mais, seus olhos se arregalaram e seu coração parecia que ia sair pela boca. "Não... Não pode ser", pensara. Mas para seu alívio, após fazer-se um silêncio aterrorizante e inusual, os ruídos voltaram e a carruagem moveu-se, seguindo seu curso.

Suspirando, ela permaneceu ali por um tempo, ouvindo os sons desaparecerem aos poucos pelas ruas da cidade. Em seguida, quando só o que escutava era seu respirar e os tiques do relógio, levantou-se e trancou a porta. Acendeu uma vela e deixou-a na janela. Naquela noite, seu sono foi pesado e sem sonhos. No dia seguinte, no lugar onde deixara a vela, encontrava-se um osso. Havia sido por pouco...









Descrição do meu redor. Quinta feira, 30 de abril, 176237183 dias de quarentena.


Eu estou na sala, sentada sobre a perna esquerda em uma cadeira um pouco acolchoada, que se sente dura embaixo de mim, ainda que não fria. Posso escutar o calmo ruído que faz o ventilador do notebook, o ruído das teclas enquanto digito. Esses sons, tão usuais que já me passam despercebidos, não abafam o barulho feito pela minha companheira de casa que se senta diante de mim. Ela está almoçando, eu assumo, e corta algum tipo de salsicha vegana, consigo ouvir sua mastigação e suas unhas batendo enquanto colhe os pequenos pedaços de pão que ficaram para trás.

À minha esquerda há uma janela dupla, nenhuma está aberta pois hoje faz frio. O céu nublado me transporta para São Luís, uma sensação de melancolia persegue-me desde ontem. O cheiro de chuva me faz lembrar o Brasil, e eu sinto falta de estar em casa. Eventualmente escuto o canto de passarinhos e posso observar algumas aves voando. Não muito longe, pois na frente da minha casa existe uma parte do antigo muro que circundava a cidade. Uma árvore balança preguiçosamente pela ação do vento, assim como as folhas das pequenas plantas que hoje crescem no muro. É uma visão muito bonita, mas meu olhar já se acostumou a ela. Lembro que ao chegar, tudo era novidade, agora já não é mais.

Minha companheira de casa segue comendo, movimentando os potes de geleia ao seu lado, arrastando-os poucos centímetros para o lado. Suspiro, pois não sei muito bem o que farei hoje. Estou cansada dessa quarentena, queria voltar ao trabalho, mas creio que ainda vai demorar... E percebi que escrever em primeira pessoa é extremamente difícil e soa muito repetitivo. Vou tentar depois outras formas de escrita.

Bem-vindos!

Simplesmente criei isso em plena quarentena porque estou entediada e estava com vontade de escrever. E queria botar em algum lugar pra ficar mais fácil de visualizar kkkk. É isso, bjs da binglee